Arcano IX - O ERMITÃO

Þ Tudo na vida tem sua função periódica. Em silêncio, leve sua própria luz. Sua solidão jamais será entendida por alguém. Ü

O Ermitão é o arcano IX do Tarô, representado por um ancião que leva na mão direita uma lanterna, a Luz que ilumina o seu caminho. Um cajado facilita seu trabalho. A seu lado, rasteja uma serpente, mas ele não a destrói, apenas encanta. Existem, ainda, na figura, símbolos que remetem ao planeta Saturno e ao signo de Capricórnio. Esse arcano simboliza sabedoria, autoconhecimento, solidão, prudência e maturidade. É o silêncio interior, onde a gente se encontra, se ouve e se sente porta-voz e árbitro de nós mesmos e de nossas próprias leis.

Acumulando experiências, o Ermitão é um viajante que não fica pensando naquilo que deixou para trás, mas naquilo em que a vida o transforma, para explorar suas potencialidades futuras. Ele é a síntese de quem sofreu, de quem aceitou sua atual condição humana perecível e sacrificou suas fantasias por uma realidade pessoal que o transformará num ser eterno. É a maturidade na velhice, ou na juventude, ou em outra idade qualquer. Dotado de personalidade marcante, o Ermitão tem uma enorme capacidade de conviver com todo tipo de pessoas, entender seus problemas e aceitá-las exatamente como são. É incapaz de negar ajuda a quem precisa.

Muitas vezes pode representar alguém fechado no seu mundo, que não se entrega facilmente às pessoas e aos envolvimentos emocionais, só confiando em si mesmo e, talvez, com tendências ao egoísmo. Nesse caso, desconfia discretamente das pessoas, podendo ser avarento, introspectivo, calado, observador, paciente, tímido e resistente. Tem um olhar profundo, penetrante e desafiador. Perguntado, sempre responde; se não perguntado, nada fala. Quando se apaixona, tem em mente se fundir com a pessoa amada, mas em se comprometer com ela.

O Ermitão, tendo atingido uma segura unidade interior, sente-se capaz de se expor ao caos externo, mas sem se deixar confundir. Ele simboliza o viajante solitário que clareia sua própria escuridão, que atravessa as dimensões do espaço e do tempo para conquistar o sentido do aqui e agora. É o poder mágico que o homem tem de conhecer a si mesmo e a necessidade que cada um de nós tem de descobrir sua luz interior.

Representação abstrata: a busca do conhecimento feita em silêncio, com prudência e circunspecção. Transmissão soberana da verdade. Ordem, sistema de investigação, estudo, intuição, aptidão para fazer descobertas, meditação, razão, trabalho mental, sabedoria; circunspecção, proteção, prudência, trabalho paciente e profundo, ajuda; silêncio, discriminação, conselho prudente, reserva, experiência de vida, análise dos desejos, esperanças; celibato, estabilidade, cumprimento de promessas; a voz do eu interior, a chama do conhecimento que existe em cada um de nós. No negativo: caráter taciturno, desconfiado; tristeza, misantropia, pobreza, avareza; ceticismo, medo das novidades, receios infundados.

Tarô - O Ermitão

O arcano do papo de hoje é o arcano da individualidade, da separação, da maturidade, da solidão, é o Eremita ou Ermitão. O Ermitão é o último de todos os números, é o 9, é o último, o mais velho, o mais maduro; é aquele que partindo do 0, do nada, atingiu o 9, o alto da montanha; ele já é a luz sintetizada nele mesmo, não precisando mais de qualquer luz externa. Ele é a introspecção, o fechado, o profundo.

A Cabala diz que esse arcano ninguém tem condições de explicar direito porque nenhuma palavra chega, nenhuma palavra tem essência suficiente para descrever a própria essência. Então o Eremita é aquele que não pode ser explicado, é aquele que não pode ser detalhado porque as palavras são não capazes de fazê-lo; ele é a nossa vivência do que chamamos solidão. Se eu uso uma palavra, cada um de vocês entende essa palavra com a sua solidão; se eu uso uma imagem, cada um entende essa imagem com a sua solidão, exatamente porque cada ser humano é único, um ser só (sozinho), individualizado, particularizado, sozinho com sua consciência, com sua luz própria... só. Se eu falar a palavra amor, cada um vai entender do jeito que vivenciou o amor, cada um tem sua história particular, pessoal, com o amor, e isso não pode ser compreendido pelos outros. Isso é a nossa solidão.

Assim, o Ermitão é o símbolo da particularidade, é o silêncio. Ele remete ao hemisfério cerebral direito, que a gente chama de abstrato, e que lida com as coisas profundas, as coisas mágicas, com o silêncio, com o que não se vê. Um artista ao pintar, por exemplo, ele olha a tela como se fosse um plano no Universo; ali ele coloca formas e cores, ali ele coloca a sua solidão expressa em imagem. Se ele é artista mesmo, ele consegue expressar aquela sua emoção, aquela sua solidão, e a gente gosta ou não gosta. Um quadro pode ser mal feito e a gente gostar, e um outro quadro, muito bem feito, com uma técnica fantástica, a gente pode simplesmente não gostar. Isso é uma coisa de emoção que ninguém explica. Não se gosta de um quadro pela técnica do seu autor, é uma questão de afinidade, de emoção, não tem explicação. Quem gosta ou não de um quadro é a nossa solidão.

O Eremita é o silêncio profundo. Quando a gente fica caladão e alheio aos estímulos externos, o que emerge é muito profundo, muito forte; o presente, o passado e o futuro emergem com tanta força que a gente tem que fazer algum barulho, tem que rapidamente criar uma imagem, dizer alguma coisa ou pensar em alguma coisa senão a imagina que está entrando no caos, que está pirando. O pior castigo para o ser humano é a chamada solitária. Qualquer prisioneiro muito macho se borra todo quando tem que ir para a solitária pela segunda ou terceira vez porque a pior coisa que tem é a falta de luz, a falta de barulho, a solidão, ficar fechado em si mesmo, ninguém agüenta isso por muito tempo; uns não agüentam nem por poucos momentos. O ser humano precisa tentar trocar sua energia com os outros seres humanos.

Dentro dessa simbologia, dentro da noite, do silêncio, do desconhecido, do oculto, o Eremita tem sua própria luz, a sua própria essência e ele quer ver a essência dos outros, a luz dos outros, a alma dos outros. Então o Ermitão tem aquele olhar, um olhar profundo, um olhar que vê a alma da gente, que liberta nossas emoções, que nos mobiliza muito interiormente.

Delírio afetivo/sedutor/sexual: quando mais você se explica, menos interessante fica; a arte de seduzir é ficar calado; quem fala, não come; quem come, não fala.

O Ermitão é o símbolo do círculo, é o todo, o absoluto, é a alma, e a arte da vida é você buscar a possibilidade de entrar nesse mundo redondo do Eremita. Quando olhamos o círculo de longe, ele se parece com um ponto; quando vamos nos aproximando desse ponto, descobrimos que é um círculo, um mundo redondo. O ponto é o Mago, o círculo é o Eremita. Um tem poder de chegar lá, o outro já está lá.

O Ermitão está encoberto por seu manto, que o defende do meio externo. Só o rosto dele se destaca, o restante do corpo está coberto, fechado em si mesmo. Ele tem a capacidade de se prover. Ele não está aberto para não receber influências; ele convive com qualquer um, mas não se contamina com ninguém. O mundo do Ermitão é bem diferente do mundo do arcano XXI, O Mundo; ele tem um mundo interno e o arcano XXI é o mundo externo. O mundo do Ermitão é aquele mundo para dentro, fechado em si mesmo, a pele dele não se evidencia, ele não quer se desconcentrar, não quer perder a seriedade, a maneira profunda de ver e compreender as coisas. O ver comum, que não é o do Eremita, traz milhões de informações, percepções, idéias e sentimentos que contaminam com o que há de melhor e o que há de pior. O mesmo ocorre com a palavra, só que esta vai limitar, fragmentar, cortar, separar, dividir e representar as coisas, mas não vai atingir a essência (fazer olhar de Mago e de Ermitão). E o Eremita é aquela coisa sem limite, é o fundamento, a essência, a nossa solidão.

O Ermitão é o iniciado, o iluminado, é aquele que chegou lá e viu; é aquele que chega aqui e vê; ele não olha, ele vê. Ele é o eixo da Roda da Fortuna e no centro da roda não há movimento. Ele é o olho que tudo vê; está tudo girando e ele está lá ó... só olhando; ele sabe que tudo é movimento, que tudo sobe e desce, que tudo é cíclico; ele sabe viver o todo, ele sabe o momento em que deve agir e não deve agir, ele não se envolve facilmente; ele é a solidão. O Eremita é um dos arcanos mais sedutores do Tarô; as pessoas geralmente ficam seduzidas por ele, sentem uma coisinha boa perto dele, mas sentem uma espécie de medo.

Cada um de nós, na sua solidão, cria o seu próprio mundo: meu pai, minha mãe, minha casa, meu país, meu mundo, meus valores, meu deus, etc. Todo um sistema completo para poder se defender desse mundo que é completamente maluco, que é redondo, muito diferente e muito maior que a nossa estupidez. Cada um inventa seu sistema e temos que respeitar. Cada um na sua loucura particular. *E é por isso que a pessoa que busca entender a própria loucura, que respeita e busca entender também a loucura dos outros é chamado de Mago*. Quem já entende tudo isso é Ermitão, aquele que enxerga o todo, que não separa as coisas em partes, que usa os dois hemisférios do cérebro.

No lado direito do cérebro, esse lado que é fora do tempo, fora do espaço, que é abstrato, as pessoas botam um murinho para não passarem para o lado de lá e dizem que é bruxaria; botam um véu ali e não o enfrentam. Só que chega um momento na nossa evolução pessoal que temos que rasgar os véus, enfrentar aqueles modelos que usamos e que não nos satisfazem mais, ficamos necessitando de coisas que nos ajudem a crescer, a evoluir, a desenvolver melhor o nosso mundo, a nossa arte de viver. Então a gente se apaixona por Psicologia, esoterismo, espiritualidade, Astrologia, Tarô, etc., coisas plenas de funções próprias do hemisfério direito, e que nos ajudam a viver melhor, a conviver melhor conosco mesmos, a conviver melhor com os outros (ver frase do parágrafo anterior marcada por *).

O Ermitão mostra exatamente essa solidão de cada um de nós. Por isso, quando ele sai no jogo, podemos interpretar pelo lado negativo porque bate direitinho. Raríssimas pessoas transam o seu Eremita com sabedoria, com prazer, com alegria, pelo lado positivo. "Ah, mas eu fico feliz sozinho, fico contente com a minha solidão, fico sozinho numa boa". É cascata! Ficar sozinho só é bom porque a gente sabe que pode acabar com essa solidão a qualquer momento, pode ligar para alguém, pode sair de casa, pode falar com o vizinho. O Eremita só é bom quando você pode se livrar dele. É bom pegar o carro e dirigir sozinho, mas dirigir sozinho todos os dias, sem opção, é ruim. É bom ficar em casa sozinho, mas se a gente abrir a porta e o mundo não estiver lá fora, esperando, duvido que alguém agüente numa boa.

O Eremita é aquele que subiu a montanha, que superou obstáculos, que chegou lá (símbolos de Capricórnio). Ele é representado por um velho porque a luz interior só cresce com a vivência e a experiência. O Eremita não está com a roupa do Papa, cheio de bandeirinhas, estrelas e símbolos de rei da cocada preta, mas ele tem a vivência, tem a luz na própria mão, ele tem a luz interior que ilumina seu caminho.

Como é então que o Eremita, que tem experiência, que tem vivência, que tem luz própria, que tem sabedoria, opta por fazer uma coisa que ninguém faz, que ninguém suporta, que é viver na solidão? Porque ele não quer perder a sua consciência, ele não quer morar nos outros, não quer morar em ninguém, quer morar em si mesmo. O bom Eremita, ele se basta, ele se provê, ele entende sua solidão, ele sabe que é só, único, diferente dos outros, e é exatamente por isso que ele nunca é solitário. A luz do Eremita sempre se mistura com a luz das outras pessoas; ele consegue estar mais profundamente com as pessoas, ele se comunica melhor, ele entende, ele tem aquela coisa da presença, aquela coisa que a palavra não traduz, aquela coisa que excita. O Eremita é um arcano altamente erótico, ele dá um tremendo tesão... aquele olhar... aquela força... aquela coisa redonda... aquele mistério... aquele universo. Delírio engraçadinho: não dá vontade de tirar a roupa dele para ver o que tem escondido embaixo? Dizem que quem experimentou não conseguiu esquecer mais...

Só quando descobrimos a nossa solidão, a nossa individualidade, a nossa separação, a nossa particularidade, é que nunca mais nos sentiremos solitários. Enquanto quisermos morar em outras pessoas, enquanto imaginarmos que os outros vão entender o nosso mundo, a nossa solidão, o nosso jeito, estaremos completamente solitários porque ninguém vai corresponder. Entretanto, quando você reconhece que é só, quando você reconhece a sua solidão, quando você se basta, cada fato, cada pessoa só vem somar à sua luz interna, só vem expandir.

O Ermitão mora nas cavernas, mora nas coisas ocultas; ele vê à noite, vê no escuro, vê onde ninguém mais vê, vê o oculto, tem aquela coisa lá dentro, bem guardadinha, que ninguém sabe. Sua grande fortuna é interior. Você nunca ouvirá ele dizer que quer dinheiro, que quer ser rico, que quer ter isso ou aquilo. Porque ele é rico por dentro, ele é próspero de luz, é a riqueza interior dele que vale. Solidão, caverna e alto da montanha são símbolos muito profundos, e o Ermitão é aquele que foi buscar a sua solidão, a sua caverna, o alto da sua montanha. A sua consciência é sua riqueza, a sua experiência é sua riqueza, a sua vivência é sua riqueza. Não adianta você desejar qualquer mal ou qualquer bem a ele porque ele encara isso como uma vivência, como uma experiência e isso só aumenta sua consciência, sua luz, sua riqueza. Tudo ele usa para crescer. Ele é profundo e calado. É sempre sábio ficar calado se a gente sabe muito ou se a gente sabe pouco: o homem sábio é o homem calado. O Eremita tem essa questão da gente saber o que pode ou não pode dizer para certas pessoas. Porque para certas pessoas, só cabe o silêncio.

Em alguns Tarôs, o Eremita está acompanhado de uma cobra, símbolo da astúcia, da sagacidade, cheia de veneno, pronta para atacar, mas ele não a atinge com o bastão, nem a pisa: ele a encanta, ele a hipnotiza, ele a mantém sob controle próximo...

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