Arcano I - O MAGO
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Sou muito maior do que a imagem que até hoje consegui fazer de mim mesmo Ü
O arcano I é o senhor do Tarô. É representado por um jovem homem de pé, em frente à sua mesa. Nela, estão os 4 objetos que simbolizam os elementos fundamentais: moeda (terra), taça (água), espada (ar) e bastão (fogo). Eles estabelecem a ligação com os mundos material (terra), emocional (água), mental (ar) e individual (fogo). A mão estendida para cima significa poder e vontade; a que está voltada para baixo, realização, busca da massa alquímica, mostra a missão do homem de reinar sobre esse mundo e sobre si mesmo. Acima de sua cabeça encontra-se o símbolo do infinito
¥ (o chapéu), representando seus poderes ilimitados.O Mago simboliza a força do homem em domar a natureza, analisando suas energias e direcionando-as com criatividade. Ele é a busca do poder, o incessante fluxo da criação e a capacidade de revelar a realidade fundamental onde tudo se estrutura. Tem muita alegria de viver, é astuto, inteligente e muito determinado para conseguir seus objetivos. Seu caráter é um labirinto de contradições. Exerce as funções mais variadas em proporções inacreditáveis. Conta-se que, na sua origem, esse arcano queria representar o artista, o bufão ou o comediante ambulante que, de cidade em cidade, ia, com um grupo de atores, levando comédias, notícias e vendendo elixires fantásticos (observar a bolsa em cima da mesa). As autoridades viam esses grupos com desconfiança pois eles também eram veículos de novas e revolucionárias idéias, que transmitiam de um país a outro.
Esse arcano aponta o potencial criativo não manifesto ainda em nós e indica momentos de clareza e identificação das possibilidades não exploradas. No jogo, ele pode indicar o início de uma fase importante no mundo dos negócios. O Mago pode ser vendedor, comerciante, especulador, atravessador, mascate, relações públicas, camelô, dançarino e todas as profissões que exijam jogo de cintura, habilidade e talento. Tem temperamento alegre, brincalhão, mas é também mentiroso, trapaceiro, e, sempre que pode, tenta induzir o outro a fazer aquilo que ele deseja, sem que isso seja percebido.
Representa o momento criativo do aqui e agora, além da capacidade de acelerar processos naturais em aparente desafio às leis da natureza. Uma pessoa assim pode ser boa ou má, pois existem o mago branco e o mago negro, mas o importante é saber que ambos têm poder, inteligência e habilidade. Seu maior desafio é a vaidade.
Representação abstrata: o início dos atos da vida material e mental, aspectos para os quais mais se habilita. A prestidigitação (do latim digitus, dedo, e praestigium, ilusão, artifício) consiste em tocar nas coisas com os dedos, modificando-as diante do mundo visível. Inteligência, astúcia, presença de espírito, iniciativa, vontade, energia, poder, criação, ânimo para se confrontar com os perigos; diplomacia, finura, persuasão, personalidade. No negativo: falta de escrúpulos, exploração do outro, tendência à impulsividade, mentiroso, trapaceiro, enganador.
A lenda do Mago - O Mito de Mercúrio
No Egito era Thot, conhecedor das segredos e mistérios, adorado como apaziguador porque trazia harmonia ao povo através de suas Poesias. Era o escriba dos deuses e responsável pelos livros divinos. Aparece, também, como Hermes Trismegistos, pai das ciências. Os caldeus chamavam-no de Nebo, aquele que fazia advertências. Na Índia é associado a Buda, o sábio; e no cristianismo seria Jesus, o intermediário entre Deus Pai (o espírito) e o Espírito Santo (a matéria).
Entre os gregos, Mercúrio era filho de Zeus (o próprio Deus todo-poderoso) e Maia (uma ninfa da Natureza, símbolo da candura, da pureza, da fragilidade, da doçura). Dessa relação de amor e também um pouco violenta - o todo-poderoso x a fragilidade, a pureza - , nasceu Mercúrio, O Mago, e logo após seu nascimento mostrou sua grande inteligência. Mercúrio nasceu num monte (em cima - o alto), dentro dum vão de salgueiro. Salgueiro é uma árvore importante porque evita malefícios, como a arruda, a figueira, etc. Ao nascer, Mercúrio estava enfaixado e imediatamente desatou sua faixa e seus nós, ficando livre. Aquele que ata e desata tem o poder supremo, o poder de prender ou soltar alguém. Esse símbolo aparece na aliança do casal - foi atado pelo poder divino.
Com a mãe cansada pelo esforço do parto e adormecida sobre o monte, Mercúrio lavou suas fraldinhas, saiu pelo mundo e foi à Tessália, onde estavam os mais belos rebanhos, e roubou os rebanhos de Admeta que Apolo, seu irmão mais velho, estava guardando. Apagou os traços do roubo (vaca de costas, galhos nos rabos), subornou as testemunhas (a estória do velho), sacrificou duas novilhas aos deuses, matou uma tartaruga da qual fez uma lira, escondeu o gado numa caverna e voltou rapidamente ao berço, entre as fraldas limpinhas e cheirosinhas, como se nada tivesse acontecido. Ficou dando uma de neném da maneira mais pura, mais hábil e mais doce que todo neném tem. Já começava a mostrar a sua rapidez, versatilidade, diversidade, astúcia e amoralidade.
Apolo descobriu o roubo e como tinha o dom da adivinhação, acusou Mercúrio. Os deuses não acreditaram porque, afinal, Mercúrio era apenas um bebê. Mas Apolo levou-o a Zeus que o obrigou a não mentir.
Zeus: "você roubou o gado!".
Mercúrio, com a maior cara de bebê inocente: "eeeu!? Eu não, o senhor está enganado. Eu sou seu filho, tenho inteligência, habilidade, conheço os caminhos. Eu apenas guardei o gado na caverna como uma segurança para o futuro. Sabe como é que é, Pai, eu nasci de um momento imprudente seu com uma ninfa, o senhor não se casou com uma deusa para que eu nascesse deus, herdeiro da sua riqueza e do seu poder e fosse mandar no meu próprio mundo; então eu tenho que me virar." Zeus, sentindo-se culpado, dá-lhe o caduceu (uma espécie de bastão com poder mágico que narcotiza, mas também símbolo da sabedoria), e o obriga a nunca mais mentir. Mercúrio conhece as ervas, e o seu poder mágico, representado pelo caduceu, é usado como símbolo dos médicos. Mercúrio, O Mago, não mente, mas também não diz a verdade completa.
Para conquistar Apolo, Mercúrio tocou a lira feita da tartaruga, encantando-o. Então Apolo trocou os rebanhos pela lira. E a estória acaba aí, com ele se dando bem.
O Mago representa a comércio, a troca; é o protetor dos comerciantes e dos ladrões, e também dos viajantes. Os viajantes/comerciantes jogavam pedras num monte para que Mercúrio protegesse seus negócios. Na Grécia existem montanhas de pedras pelos caminhos. A pedra é um símbolo da presença divina: o altar.
Mercúrio usa um chapéu que lhe dá invisibilidade, sapatos com asas que lhe dão rapidez, uma bolsa para guardar seus lucros e esconder seus poderes, tem o dom da palavra e o caduceu que narcotiza.
O que é interessante nessa estória é a gente perceber que o poder, a habilidade, a criatividade, a inteligência vêm do nada e da pureza. É uma força que surge na alma das pessoas que querem existir, atingir algo, adquirir seu espaço, que querem viver, se apresentar ao mundo, se posicionar. Mas, quando essa força brota, a gente começa o incomodar família, pai, mãe, irmão, todo mundo, como o Mago fez com Apolo, com Zeus, com Maia; ele enrolou todo mundo. Essa necessidade do homem de mentir, de enganar, de comercializar, de inventar valores que não existem, de ter astúcia, são propriedades que se desenvolvem porque as coisas não nos chegam prontas, de maneira espontânea, caídas do céu nas nossas mãos. Se quisermos alcançar alguma coisa, a gente tem que correr atrás. Ou seja, o Mago sentiu que nasceu de uma imprudência, que não era filho de deuses, que não herdaria nada; então ele desenvolve outros caminhos, outras maneiras de adquirir a grandeza, o poder e a excelência que, para ele, eram vitais.
É interessante perceber que o homem, na busca da sua existência, do seu um, do seu poder, da sua vida, do seu ser, desenvolve 1001 maneiras de aparecer, 1001 caminhos, cria 1001 valores, desenvolve a astúcia e aprende a conciliar a realidade e a falsidade, a verdade e a mentira.
O Mago é o grande deus do comércio. Para ele, nada na vida tem preço, tudo depende do poder, da astúcia, da malandragem de você fazer seu produto valer muito e o produto do outro valer pouco.
O Mago é muito a busca interior, pulsiva do homem para ser o merecedor da força divina (o poder de Zeus); ele quer chegar lá para ser o representante da força divina, superior, para que ele venha a ser o eleito, o notável, a pessoa adequada para possuir aquela energia, aquele poder, aquela força. O Mago tem muito de sacerdote; é aquele que detém a magia, que sabe fazer e acontecer, que sabe dirigir as forças da natureza, aproveitar as forças dos elementais, sabe usar a vontade, o domínio e o controle.
O mistério desse arcano é simbolizado por um jovem cheio de energia no gozo da sua vida e em pé, porque O Mago não pode estar deitado; ele tem que estar ativo, em movimento. Na sua frente há uma mesa onde ele coloca os elementos, "bota as cartas na mesa", onde ele abre a bolsa do Louco inconsciente e começa a tomar consciência das forças da natureza, das estações do ano (nasce, atinge o auge, decai, morre), da terra, água, fogo e ar; da moeda, taça, espada, bastão; começa a tomar consciência da mutação de tudo; começa a exercer controle sobre a taça-emoção, começa a ter o domínio, o controle e o poder sobre a espada-mente; o poder sobre o ouro-matéria; a habilidade de lidar com o bastão-fogo.
O Mago liga o céu à terra. Ele tem o bastão na mão esquerda dirigida para o alto, que o liga ao céu, ao imaginário, ao perfeito, ao divino (o bastão simboliza seu poder de alcançar mais longe, diminuir as distâncias; é a vontade que determina as coisas), e a mão direita na direção da terra, onde ele ilumina, trabalha os elementos, manipula as forças. A função do Mago é unir os valores do céu com os valores da terra; ele é um canal, uma via. Ele tem o símbolo do infinito sobre sua cabeça, o símbolo da eternidade, o círculo unido ao círculo por um só ponto, que é o poder dele de lidar com o Bem e o Mal, o céu e a terra, o espírito e a matéria, a verdade e a mentira, o real e o imaginário, o concreto e o abstrato. Ele é O Mago.
Somos O Mago quando estamos ativos, poderosos, ágeis, inteligentes, criativos, astutos, surpreendentes; quando não damos mole para o azar; quando a gente vai lá e se garante; vai lá e mostra a capacidade, tira um coelho da cartola, mostra coisas que os outros não tinham ou não sabiam; vai lá e demonstra do que a gente é capaz.
Mas na vida tudo é temporário, tudo é ocasião. Às vezes nos sentimos O Mago, o todo-poderoso; às vezes nos sentimos O Louco, o zero, o vazio, o nada, o coisa alguma. De repente, a gente está num cargo, numa posição qualquer e tem o poder de mudar as coisas, de influir na realidade, gerenciar um monte de coisas e dar as cartas; mais adiante, acaba o cargo, a posição e a gente não gerencia mais m. nenhuma. É claro que preferimos ser O Mago. Assim, fica todo mundo querendo se manter no cargo, na posição, no poder. Se a gente tem que largar um posto para ir para outro, isso já dá medo: será que lá a gente vai continuar Mago também? Várias pessoas, depois que conseguem determinado cargo ou posição, não se aprimoram mais por achar que não seriam tão importantes, tão habilidosos, tão capazes, tão ágeis em outro cargo. Isso justifica a frase inicial do outro texto.
O Mago é uma coisa natural no ser humano; ele se lança na busca da própria essência, da própria existência; ele usa toda a maneira inteligente e criativa para se manter no poder, manter a vida, manter a sedução. É um arcano com o qual nós estamos convivendo constantemente: quando a gente está se arrumando (se cobrindo com uma pele que não é nossa), se pintando para parecer mais bonito, se perfumando para adquirir um cheiro que não tem, a gente está sendo O Mago, está utilizando de fórmulas secretas para parecer de uma maneira diferente do que verdadeiramente somos, estamos usando astúcia e criatividade.
A questão do Mago é o nosso ímpeto de sentir que existimos, de seduzir, de envolver. Quando vamos namorar, por ex., procuramos mostrar a nossa melhor performance, o nosso melhor afeto, a nossa melhor atenção, a nossa melhor aparência. Isso tudo faz com que o outro se sinta amado. Mas, quando o outro compra a ilusão que nós vendemos, danou-se todo; aí, a gente deixa de ser O Mago e nos mostramos na realidade. Por isso é que as pessoas vivem falando "quando ele me queria, fazia tudo o que eu pedia; agora que conseguiu..." Porque, no início, todos nós vamos de Mago.
O Mago é o deus dos marginais, é o ladrão, é o astuto; ele nunca faz guerra, nunca vai no corpo-a-corpo, nunca dá porrada; ele resolve por caminhos diplomáticos ou escusos; ele arrasa o inimigo sorrindo, vê o inimigo alucinado e ri; ele conhece todos os caminhos, todos os jeitinhos, ele é o rei dos bastidores e especialista em corredores. Ele é acusado de estar em 2 ou 3 lugares ao mesmo tempo porque ele vai logo adiante assim que consegue o que queria naquele local. Ele nem gosta de manter situações, ele gosta de chegar e arrebentar; ele, quando chega, é aquele que arrebenta a boca do balão; quando chega, está sempre saindo, ele já entra dando um passo atrás, ninguém o segura; ele sabe muito bem de que jeito, de que forma vai negociar para obter aquilo que quer; ele tem astúcia, jogo de cintura, sabe ver no escuro.
Magos eram sacerdotes que viviam na Grécia e o interessante é que mudavam Imperadores, mudavam reis, mudavam leis, mas os Magos permaneciam nos seus lugares; formavam um poder paralelo. Nunca os reis e imperadores declararam guerra a eles, e vice-versa, e eles nunca perdiam a excelência, o poder. Até que veio um grupo de Magos mais espertos e dominaram o planeta com um símbolo criado por eles com habilidade e com astúcia. Aí, criaram um Império que matou milhares de pessoas durante séculos e que se mantém no poder até hoje. O império é a Igreja Católica Apostólica Romana e o símbolo chama-se Jesus Cristo.
Os Magos são meio complicados entre si; sempre um quer mostrar que é melhor que o outro; sempre um acha que tem um truque escondido e que, na hora, ele vai dar a volta por cima, vai mostrar que é o melhor; eles sempre gostam de colocar pedras no caminho dos outros Magos. Vide críticas e fofocas no meio artístico, na psicologia, na psicanálise, no esoterismo, nas religiões, etc.
Então, o Mago é toda figura que vem representar a encarnação perfeita de Deus na terra, o Todo-Poderoso encarnado e (piada) ele é quase parecido comigo: bonito, inteligente, hábil, sábio, cheiroso, gostoso. Daí a expressão "o mago da política, o mago das comunicações, o mago do marketing", etc. Agora, se você dá uma de Mago e não se garante, se você dá uma de Mago e não dá certo, você fica com a cara do Louco, o babaca da corte. Segundo Eliphas Levi, O Mago é um Louco que dá certo.
O homem é um ser que se faz, um ser que se liga em Deus, um ser que busca observar os caminhos coerentes das virtudes e procura canalizar isso para dentro de si; é aquele que busca o auto-aperfeiçoamento, busca a felicidade através do exercício pessoal; aquele que sabe viver em harmonia com os ritmos e ciclos da natureza. Mago branco é aquele que estuda magia ecológica, a magia harmonizada com a natureza. O poder e a força que ele adquire serão usados sem agredir a natureza, respeitando as forças, os ritmos e os ciclos da natureza, respeitando as pessoas; o poder que ele adquire é utilizado no próprio aperfeiçoamento. O Mago negro é aquele que agride a natureza, desrespeita as outras forças, impõe sua força sobre os mais fracos, manipula em proveito próprio.
Quando usamos a nossa magia para servir às pessoas, ajudar, ensinar, melhorar a vida delas, deixá-las mais independentes, estamos gerando uma força harmônica que satisfaz a natureza e a nós mesmos, estamos sendo positivos, ativos, magos brancos. Se usamos uma magia que só visa o nosso interesse pessoal, é porque estamos em desarmonia com a natureza; e quem está em desarmonia não tem harmonia, e quem não tem harmonia não tem felicidade. Isso é magia negra. O Mago branco é aquele que desperta a força e a luz interiores dos outros e é perfeitamente capaz de conviver com elas, sem medo da "concorrência". É o contínuo aperfeiçoamento pessoal que tira o temor da "concorrência".
Um dos grandes defeitos do Mago, ou melhor, dos meio-magos, é a vaidade. Se formos ver a história da magia, todos os magos perdem na mesma tecla: na vaidade. A vaidade ocorre quando a gente está seguro, auto-confiante, quando a gente sabe que sabe e acha que isso garante uma figura bastante estável, constante e objetiva, sem necessidade de aperfeiçoamento. E aí, o que acontece? Para sentir o quanto você é positivo, o quanto você tem poder, o quanto você cresceu, o quanto você tem força, o quanto você é legal, você vai se cercar das pessoas que puxam o seu saco, que dizem que você é muito bacana, muito bonito, que você é o máximo, e rechaçar as outras. Então você fica mais vaidoso e fica sempre querendo fazer uma demonstração a mais, mostrar mais um poderzinho, fazer mais uma palhaçada, mostrar mais uma coisa para o seu círculo (circo). Aí O Mago vira O Louco, o palhaço, o bobo da corte. Bobo da corte é aquele que vive distribuindo magia, fenômenos, distribuindo palavras fúteis, sem ter um poder verdadeiro, para agradar a corte; é o babaca da corte; é aquele que usa o seu poder para viver no ridículo. Frase da Magia: demonstrações de poder não demonstram Poder. Isto é muito comum: pessoas que acabam se enrolando e se perdendo porque seduzidas pela vaidade.
Outra coisa: toda vez que você começa a descobrir o seu poder, a sua inteligência, o seu ser, a sua individualidade, a sua energia, a sua determinação, as pessoas se reúnem para lhe derrubar; elas chegam para destruir, sabotar, para dizer o que você não deve fazer e, com o decorrer do tempo, para agradá-las e por medo de se sentir sozinho, você acaba absorvendo isso, acaba se auto-sabotando, se podando, entrando na mesmice.
Quando a gente está feliz, a gente começa a se sabotar porque sente que, sendo feliz, a gente parece que agride os outros, não consegue mais satisfazer as necessidades dos outros, não consegue mais satisfazer o coletivo. Então começamos a podar a nossa individualidade, o nosso poder, a nossa habilidade, energia e determinação porque temos medo de ficar sós e achamos que as pessoas não estarão conosco. Acabamos ficando com as pessoas em prejuízo próprio e falando o que elas querem, fazendo o que elas querem para ficar bem com elas ... e cada vez elas vão nos exigir mais.
O Mago ocupa o lugar, no nosso imaginário, daquela pessoa perfeita, sem problemas. O Mago não tem dor de cabeça, não tem problemas, não tem emoções, não tem necessidades pessoais, não precisa de ninguém para cuidar dele, etc. Ele faz tanta coisa bonita para você, ele fala as coisas mais lindas da sua alma, ele faz você relembrar milhões de coisas, tudo o que ele diz é tão lógico, tão óbvio, ele ensina a você uma porção de energias, uma porção de coisas positivas e o que acontece? Você passa a querer essa energia, passa a querer estar no lugar dele porque, no fundo, no fundo, você acha que ele não é tão puro assim, tão digno assim de todo aquele poder, sabedoria e luz. Seguem-se pauladas e críticas. Você quer dizer é que tem essa força mais do que ele, que se você pudesse adquirir essas informações e esse poder, você seria O Mago e ia acabar com a vaidade daquele cara que está lá se exibindo, mostrando tanto saber, tanta força e tanta energia.
É muito interessante perceber que o próprio Mago, quando verdadeiramente tenta transmitir essa força, em vez de criar amigos, ele acaba criando inimigos, porque o saber da Magia, o Poder da Magia não é algo que se transmita, que se ensine. Quando O Mago lhe passa algum poder, você desvaloriza, fica achando "então é só isso?" e passa a querer saber mais do que ele, roubar o seu lugar. O saber da Magia é algo que o outro tem que buscar, tem que arrombar a porta, tem que fazer por si só. O Mago é admirado pelo poder que ele não tem mas as pessoas acham que ele tem, mas ele é O Mago porque tem um Poder que as pessoas não sabem que ele tem. Magos de verdade respeitam-se porque conhecem o Poder que cada um tem. Frase da Magia: "Alguns reconhecem um Mago quando passam a conviver com ele, mas não sabem que o reconheceram. Eles o respeitam, não o tocam, envergonham-se diante dele, fogem ao seu olhar. Estes poderão ser Magos no futuro. Os que não reconhecem um Mago, os que sentem-se a vontade perto dele, estes não podem ser Magos. Falta-lhes alguma coisa."
No início, todo mundo é capaz de dar a vida pelo Mago, acham que ele é o máximo; no final, todo mundo quer matar O Mago porque não conseguiu tirar dele o Poder. O grande barato da magia é o caso do Eremita porque o saber mágico é silencioso. As pessoas lutam, roubam, bajulam, enganam, fazem 1001 coisas para adquirir a magia, o Poder; elas buscam de todas as maneiras. Mas só aquele que se mostrar digno da bondade, se mostrar harmônico com a natureza, mostrar que usará o Poder só para o bem comum... esse será aceito e compreenderá. Por isso é que a regra é o silêncio; a gente não pode passar de um certo ponto; o Poder não se expõe. Faz parte da natureza selvagem do homem se alimentar com a vida, a luz, o poder, o brilho do outro; é uma postura pulsiva. Quanto mais poder ele vislumbra, mais ele o quer para si, e, como ele não tem a ética e a moral bem desenvolvidas, ele se torna cada vez mais bárbaro. Quanto mais o homem busca assimilar um Poder que não merece, que não está a seu alcance, mais bárbaro ele se torna. E se auto-destrói.